quinta-feira, maio 30, 2024
Aves e Aquarismo

Poecilidae: uma família de peixes muito populares – parte 1

Casal de espadas – Foto: Flávio Li Sang

Todo aquarista já teve em seu tanque um peixe dessa família. Conheça um pouco mais sobre o lebiste e o espadinha

É pouco provável que qualquer aquarista em algum momento no hobby não tenha tido contato com um poecilídeo. Talvez ao ler esse nome possa parecer estranho, mas estamos falando dos populares e amados lebistes, guppys, platis, espadinhas, molinésias e outros não tão conhecidos, mas que despertam interesse por entusiastas devido a sua reprodução relativamente fácil e diferentes padrões de cor.

A família difere da maioria das famílias de peixes pela sua reprodução vivípara, além da capacidade incrível de se adaptar a diversos ambientes, mesmo aparentemente inóspitos.

Prontos para a batalha do dia a dia

Não é incomum ouvirmos aqaristas dizendo que perderam uma ninhada porque outros peixes comeram a desova de seu casal reprodutor. É bem verdade que para maiores chance de reproduzir peixes ovíparos é separar o casal, pois mesmo com cuidado dos pais, ovos são uma iguaria atrativa e nutritiva para outro peixe que passe perto e os coitados não podem fugir dos seus predadores. Além disso alevinos (peixes ainda filhotes) nascidos de ovos, geralmente, são estranhos. Pequenos e sem grandes habilidades, dependem de proteção dos pais ou sorte para poderem se desenvolver. Muitos nascem sem conseguir se alimentar, dependendo de uma bolsa de vitelo para sustentá-los durante os primeiros dias de desenvolvimento. E tem os casos em que a estratégia reprodutiva é produzir uma quantidade enorme de ovos para aumentar a probabilidade de algum deles conseguir se desenvolver. 

Lebiste macho padrão doméstico – Foto: Roberto Vieira

Os poecilídeos, porém, têm outra estratégia, conhecida também como ovovivípara. Os ovos permanecem dentro da barriga da mãe até que os filhotes estejam prontos, nascendo pequenas miniaturas dos pais que logo já conseguem se alimentar e se virar. Porém, não há cuidado parental, então no aquário pode acontecer dos próprios pais os devorarem. Havendo esconderijos, eles conseguem evitar isso e se desenvolver, necessitando apenas, além do básico para se manter um aquário (controle dos parâmetros de água), uma alimentação que caiba em suas pequenas bocas.

Ainda mais impressionante é a capacidade de várias espécies da família de conseguir produzir mais de uma ninhada com o mesmo cruzamento: a fêmea consegue armazenar o esperma do macho e ter até três ninhadas com ele.

São também animais com dimorfismo sexual bem-marcado, pois como ocorre uma gestação, a fecundação também é interna, tendo os machos uma nadadeira adaptada para a reprodução chamada gonopódio. Já as fêmeas possuem nadadeira anal em formato normal. Há espécies com dimorfismo muito mais pronunciado com nadadeiras e cores diferenciadas nos machos, mas a observação do gonopódio garante 100% de diferenciação.

Adaptáveis e resistentes

Em várias cidades do Brasil, canais de drenagem que – muitas vezes recebem, de forma ilegal, esgotos – têm pequenos peixinhos nadando neles. Geralmente são pequenos lebistes (ou guppys, Poecilia reticulata) que ao contrário das adversidades, conseguem manter e prosperar nesse ambiente insalubre. Muitas espécies da família são associadas a ambientes com influência salina, então mesmo em locais onde os canais são afetados pela água do mar é possível encontrar esses peixes. Algumas espécies, como a nativa Poecilia vivipara, são amplamente encontradas em ambientes marinhos, salobros e dulcícolas pelo litoral brasileiro.

No aquário não é diferente. Considera-se que são peixes que se desenvolvem melhor em água alcalina e com certo grau de dureza, porém não é difícil vermos eles bem e reproduzindo em ambientes completamente diferentes, devido a sua grande capacidade de adaptação. Eles são, portanto, muito recomendados para aquaristas iniciantes e crianças. Dentre as espécies mais comuns para aquários, podemos citar o lebiste e o espadinha, que descrevo a seguir.

Lebiste

O famoso, variado, colorido e apaixonante lebiste (Poecilia reticulata), é criado por aquaristas pelo mundo todo. Poucos peixes possuem tantas cores e formatos diferentes quanto essa espécie. Os machos são menores que as fêmeas e possuem cores impressionantes. Nas variedades domésticas, também podem apresentar nadadeiras majestosas que ao serem balançadas refletem a luz em diferentes tons. É amor a primeira vista!

As fêmeas selvagens são quase transparentes, mas há variedades domésticas com cores impressionantes também. Nessa espécie as fêmeas são notoriamente maiores que os machos, mas o dimorfismo pela presença do gonopódio e nadadeira anal está presente e muito visível. Já os machos selvagens não possuem nadadeiras majestosas, mas é raríssimo encontrar dois machos com o mesmo padrão de cor. São sempre muito coloridos com padrões que diferem muito entre si.

Poecilia mexicana adaptada em aquário: animal foi introduzido na costa brasileira possivelmente em água de lastro – Foto: Greg Gonçalves

Preferidos entre criadores, algumas crias podem produzir mais de 100 filhotes, havendo, inclusive, competições e exposições acirradas das espécies pelo mundo todo.

Para melhor manutenção em aquários recomenda-se colocar um macho para cada três fêmeas, preferem ph neutro a alcalino (7,0 – 7,5) e há muito relatos de melhor saúde dos animais adicionando sal marinho (ou grosso) à água (costumo usar cerca de uma colher de sopa para cada 20 litros). 

A alimentação é onívora, aceitando ração floculada ou granulada, mas não dispensa mordiscar alga pelo aquário ou alimentos vivos como artêmia ou dáfnia.

Alcançam tamanho máximo de 5 cm (machos) e 6 cm (fêmeas), mas em especial nos selvagens, machos desse tamanho são raros sendo comumente encontrados próximos aos 3 cm. Seu tamanho reduzido os torna excelentes para pequenos aquários.

Sua fácil reprodução consiste em manter machos e fêmeas juntos. As fêmeas, quando ovadas, ficam com aspecto característico (grávidas) e quando for possível ver uma mancha negra pronunciada na barriga, significa que o parto está próximo. Para maior chance de salvar filhotes, criadores costumam colocá-las em criadeiras com alçapão que permite os filhotes ficarem separados da mãe aumentando a chance de sobrevivência. Os filhotes então são levados para outro aquário onde podem se desenvolver melhor. 

Alguns aquaristas mantém as fêmeas grávidas em aquários com muitos refúgios como plantas e pedras maiores, permitindo que os recém-nascidos possam se esconder e muitos sobrevivem dessa maneira.

Espadinha

Peixe muito admirado por iniciantes, o Espadinha (Xiphophorus helleri possui cores domésticas chamativas que vão desde o vermelho intenso, amarelo, laranja até o preto com reflexos verde metálicos. Os machos são facilmente identificados pela “espada” que apresentam na cauda (filamento notoriamente destacado). Porém não é aconselhado usar a cauda como dimorfismo total, pois alguns machos podem demorar a desenvolver sendo a observação do gonopódio a certeza da identificação.

Sou suspeito para falar da espécie, pois desde pequeno tenho uma relação de amor com ela, em especial com a variedade lira. São animais extremamente resistentes, e embora machos possam ser agressivos entre si, costumam ser perfeitos para aquários comunitários.

Seu padrão selvagem é de um corpo verde translúcido com detalhes metálicos e alaranjado na cauda (nos machos), sendo também muito atraente. Podem alcançar mais de 10 cm, mas geralmente são encontrados entre 6 e 8 cm. Nativos da América do Norte e Central, foram introduzidos em vários lugares do mundo, em muitos, com sérios impactos ambientais.

Sua reprodução é bem simples, sendo recomendado manter mais fêmeas do que machos no aquário. Basicamente, todos os procedimentos usados para reproduzir lebistes pode ser usado aqui.


Por:

ROBERTO VIEIRA

Proprietário da Flora Fish Aquários, de Santos-SP, biólogo, físico e aquarista há 26 anos. É moderador do fórum Brasil Reef (www.brasilreef.com).



 

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