domingo, julho 14, 2024
Aves e AquarismoEdição atual

Pesquisa inédita revela relação de Psitacídeos com seus tutores

Foto: JanJBrand/iStockphoto.com

Vocalização excessiva, relutância a carícias na cabeça, bicadas e falta de veterinário especializado são alguns pontos abordados

A ordem Psittaciformes, conhecidos popularmente por psitacídeos, compreende os papagaios, as araras, os periquitos, e outras espécies. Estas aves são mantidas como animais de companhia por milhões de pessoas em todo o mundo. São dotadas de alta capacidade cognitiva e, por isso, necessitam de uma diversidade de estímulos comportamentais para a manutenção da saúde física e mental. São centenas de espécies de psitacídeos criadas para o mercado pet, a maioria ainda está em processo de domesticação. O presente trabalho teve por objetivo realizar um levantamento quantitativo de fatores que determinam o nível de adaptação das aves no ambiente onde vivem e do grau de interação das aves com seus tutores. Pretende-se com isso, contribuir para o conhecimento das condições em que vivem as aves e promover medidas de bem-estar animal.

O levantamento revelou, dentre outras coisas, que apesar de as aves receberem práticas de manejo favoráveis para o bem-estar animal, como interação com o tutor, ou outro morador da residência durante parte do dia, enriquecimento ambiental e espaço para forrageio, há aspectos de manejo e comportamento animal indesejáveis, como vocalização excessiva, relutância a carícias na cabeça e bicadas no tutor. Períodos excessivos de luz e falta de atendimento médico-veterinário especializado foram dois erros de manejo bastante encontrados nessa pesquisa. Mais da metade dos proprietários (50,2%) entrevistados têm dificuldades em encontrar um veterinário especializado em atendimentos de aves. Se há, portanto, dificuldade em encontrar médicos veterinários especializados em aves, fica evidente a dificuldade, por parte dos tutores ou futuros tutores, na obtenção de informação e aconselhamento.

Amostragem

O presente trabalho obteve a participação de proprietários de um total de 53 espécies da ordem Psittaciformes. Neste levantamento, a espécie com o maior número de indivíduos foi a Calopsita (Nymphicus hollandicus), com 171 indivíduos, seguida por papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) com 55 indivíduos, Arara Canindé (Ara ararauna) e o Periquitão Maracanã (Aratinga leucophthalmus). O gênero Agapornis também teve participação expressiva, mas como os participantes, em grande parte, não fizeram referência à espécie específica, não foi possível computar o número de indivíduos por espécie.

Os tutores que se voluntariaram nesse projeto de pesquisa preencheram um questionário, disponibilizado online. Foram 442 questionários respondidos em sua totalidade, admitindo-se, portanto, o mesmo número de aves neste estudo.

Habilidades sociais

95% das aves consideradas na pesquisa, permitem o contato físico com o dono. Quanto à extensão deste contato físico, verificamos que 81% permitam carícias na região da cabeça. No entanto, o percentual de aves que não aceita carinho na região da cabeça, 19%, seria inadmissível caso estivéssemos falando de cães e gatos, animais domésticos já selecionados para critérios de mansidão e adaptação ao ambiente de cativeiro. Estes resultados encontrados na pesquisa, vão de encontro com o que Davis (1999) diz: “apesar de os papagaios poderem se tornar muito dóceis e adaptáveis ao ambiente de cativeiro, ao longo de suas vidas, eles ainda compartilham dos mesmos comportamentos naturais e padrões de resposta de seus similares em vida selvagem”. O percentual de aves que não aceitam carícias, juntamente com o percentual de proprietários, que relatam as bicadas como sendo um problema, 28,3%, corroboram com Davis quando diz que os psitacídeos ainda estão em processo de domesticação. O presente trabalho mostra que 48,2% das aves (213 indivíduos) se mostraram ocasionalmente agressivas, este número, somados aos 10,4% das aves que se mostram frequentemente agressivas, resultam em um total de 58,6% de aves que, ao menos ocasionalmente poderão demonstrar a agressividade perante seus donos e ou pessoas conhecidas. No entanto é importante avaliar se, não seria o próprio tutor, a estimular a ave a bicar sua mão. Conforme relata Wilson (2005), os psitacídeos são animais curiosos, eles irão frequentemente tentar escalar objetos que se aproximem, por exemplo uma mão. No entanto, tutores inexperientes ou medrosos, podem responder com hesitação ou a retirada da mão de forma brusca, desta forma ensinando a ave a agarrar a mão com o bico. É importante também avaliar o histórico da ave, mesmo quando adquirida com poucos meses de vida, pois para Nicol; Pope (1993); Coulton et al. (1997), é sabido que o ambiente de criação tem um impacto forte em animais jovens e experiências durante um período relativamente curto da infância do animal podem ter efeitos duradouros sobre como o animal irá reagir mais tarde em sua vida. O percentual de 49,5% de aves que se mostram nervosas ou tímidas em situações não familiares, demonstra comportamento natural, pois segundo Seibert (2007), como os psitacídeos são presas, eles respondem diferentemente de cães e gatos a desafios aparentemente benignos, como a introdução de um novo item, gestos repentinos e mesmo pequenas mudanças no ambiente. Para ajudar a lidar com esta condição, o enriquecimento ambiental precoce na vida da ave irá aumentar a motivação pela exploração e reduzirá a neofobia (NICOL; POPE, 1993; HOLSEN, 1986).

Reconhecimento de emoções

Nesse quesito obtivemos resultados bastante incisivos, já que 80% dos proprietários disseram acreditar que suas aves são intensamente afetuosas, o que demonstra algum nível de reconhecimento destas emoções. Já os 20%, 88 restantes, reconhecem que as aves não são afetuosas. Para Paul, Harding e Mendl (2005), a dificuldade no reconhecimento do estado emocional dos animais impõe um desafio ainda maior para o proprietário de ave.

Quantidade de aves

43% das aves deste levantamento têm a companhia de outra ave no mesmo viveiro, outras 24% têm a companhia de outra ave, mas em viveiros separados e 33% não tem a companhia de ave alguma. Segundo Bergman e Reinish (2006) quase todas as espécies de psitacídeos são altamente sociáveis e vivem em bandos. Seibert (2007) vai além ao afirmar que, devido a tendência de formarem bandos em vida livre, espécies de Psittaciformes podem ser menos tolerantes ao isolamento quando mantidos em cativeiro. Mesmo que em viveiros separados ocorre a interação, pois conforme Bergman e Reinish (2006), a adesão do bando é promovida através de uma variedade grande de vocalizações com chamadas calmas para realizar contato, chamadas em nível alto para alarme, chamadas pedindo por comida e chamadas agonísticas interespecíficas.

Atividade

Sobre o nível de atividade e entretenimento proporcionado a estas aves em cativeiro, a pesquisa demonstra boas práticas entre os participantes, visto que, 93,2% das aves pesquisadas possuem algum brinquedo dentro do viveiro e oportunidades para forrageio. 89,5% dos proprietários reconhecem que sua ave é ativa e energética. Para Forshaw e Cooper (1989), os psitacídeos selvagens gastam boa parte do dia escalando entre árvores durante atividades de forrageio e diversão. Outra boa prática verificada nesta pesquisa que pode proporcionar atividade, entretenimento, estímulos cognitivos e fortalecer a relação com o tutor, é retirar a ave do viveiro. Verificamos que, 88% das aves, é retirada da gaiola ou viveiro frequentemente, 70,5% das aves, tem a possibilidade de voar dentro do recinto ou em ambiente indoor e 14% dos participantes disseram que suas aves voam em ambiente externo, a céu aberto. Mas atenção, segundo Young (2003) tutores de aves devem estar atentos a importância de permitir as aves os estímulos sociais e ambientais, mas ao mesmo tempo, permitindo que elas se sintam seguras e em controle.

A pesquisa aponta que para 73,5% dos proprietários a ave é muito brincalhona. Ortega e Bekoff, (1987), afirmam que animais que brincam em seus recintos se comportam como se sentissem prazer. Comportamento que represente diversão é bem notável em mamíferos e já foi descrito em quase metade das famílias de aves.

Luz do ambiente

Resultados mostram que 19% das aves (84 indivíduos), permanecem com luz no ambiente mesmo após o anoitecer. 37,4% das aves permanecem no escuro mesmo após o amanhecer. Desta forma, para mais da metade das aves pesquisadas, 56,4%, o período natural de luminosidade e escuridão não é respeitado. Segundo Evans (2001), a maioria das espécies de psitacídeos são originários de áreas equatoriais onde o dia tem 12 horas por todo o ano, consequentemente quando se considera a luminosidade em cativeiro deve-se prover de 10 a 12 horas de escuridão diariamente para que a ave tenha um sono normal, independentemente se luz é provida naturalmente, de forma artificial ou ambos.

Inteligência

98,5% das aves são consideradas inteligentes por seus tutores. 78% das aves respondem a algum comando de voz ou gesto. Dentre as aves que atendem a comandos de voz, 43% atendem a até três comandos de voz ou gesto, 14,7% atendem a até cinco comandos e 16,3% atendem a mais de 5 comandos de voz ou gesto. O número considerável de psitacídeos que atendem a mais de cinco comandos corrobora com os estudos de Pepperberg (2002), que em seus estudos confirma as habilidades cognitivas de certas espécies de psitacídeos demonstrando níveis de inteligência similares aos encontrados em grandes primatas e alguns mamíferos marinhos. Pepperberg (1995);

Apego exagerado

Em relação ao antropomorfismo excessivo, a pesquisa não faz um diagnóstico, no entanto nos dá dados interessantes. 84% dos proprietários se declaram muito apegado à ave, 42% das aves pesquisadas passam boa parte do dia com seu respectivo tutor e 80,7% dos psitacídeos pesquisados, conseguem enxergar o tutor ou familiares durante boa parte do dia, de dentro do recinto. Estes dados indicam forte vínculo entre ave e tutor, que por si só, podem não ser um problema, mas o forte vínculo com o tutor e na ausência de outros estímulos comportamentais variados, podem levar a prejuízo da saúde mental do animal. Para Rosa, Paixão e Soares (2018), muitas pesquisas têm demonstrado que o antropomorfismo pode estar intimamente relacionado ao estresse. Se considerarmos que parte destas aves com forte vínculo com seus tutores fazem parte do mesmo grupo que não tem visão da rua, quintal ou de natureza, 19% das aves pesquisadas, temos então um cenário favorável ao desencadeamento de distúrbios comportamentais. A situação se complica ainda mais quando este tutor se ausenta, não restando à ave muito o que fazer. Arrancamento de penas foi detectado em 40 indivíduos, 9% das aves que fizeram parte desta pesquisa. Para Mason (1991); Meehan e Mench (2006), o desenvolvimento de estereotipia é frequentemente relacionado a frustração causada pela restrição de um comportamento.

Vocalização

Para 58% dos proprietários a ave é considerada barulhenta, mas que para apenas 17,4% dos proprietários, os gritos ou vocalização excessiva são considerados problemas. Para Bergman; Reinisch, (2006), a vocalização é componente inerente do repertório normal de psitacídeos. No entanto pode se tornar excessivo tanto em frequência como em altura, como sinal de perturbação de bem-estar.


Por: Felipe Poggiali Bretas

Médico-veterinário, já foi diretor de multinacional americana, onde comandou três fábricas no Brasil. Nesta época, recebeu dois prêmios em reconhecimento de suas ações ambientais e de sustentabilidade nas indústrias em que atuava.

Já teve mais de 200 aves pet, 37 cães de companhia, além de répteis e muitos outros animais de estimação e de produção. Com esta experiência e com o sentimento de dever para com a natureza e os animais, se dedica a ajudar as pessoas a entenderem melhor seus animais, suas necessidades e comportamentos naturais, fazendo com que possam ter uma relação saudável e de confiança. Instagram: @ felipe.p.bretas

 

Clique aqui e adquira já a edição 235 da Revista PetCenter/Groom Brasil e veja todas as reportagens na íntegra!