Problemas endócrinos afetam comportamento

Categoria: Saúde

Autor(a): Luelyn Jockymann | Colaborador(es): Jornalismo TopCo | Cidade: Campinas | 16/08/2019 - 13:28

A relação entre hormônios e atividade cerebral pode provocar alterações de comportamento

Foto meramente ilustrativa Cachorra: Menina Foto: Divulgação

Foto meramente ilustrativa Cachorra: Menina Foto: Divulgação

É impossível falar de endocrinologia sem falar em comportamento. Existe uma relação direta entre os hormônios e a atividade cerebral e, consequentemente, sua relação com alterações comportamentais é óbvia. Na rotina da clínica, pelo menos por enquanto, é difícil fecharmos um diagnóstico de doença endócrina. Nem sempre temos por perto um médico veterinário endocrinologista para que possamos encaminhar o caso. É importante saber reconhecer alguns sinais para suspeitar de uma causa hormonal, prosseguir com os exames laboratoriais e solicitar a ajuda de um especialista.

Muitas vezes as modificações comportamentais são os primeiros sintomas de um problema endócrino. É mais fácil e bem menos trabalhoso para o clínico suspeitar de um problema comportamental sem uma doença que esteja por trás dele. Eu ouço muitas vezes clientes que vem encaminhados por colegas que fecharam um diagnóstico de ansiedade, baseado nos sinais e problemas dermatológicos, por exemplo, quando na verdade não se trata disso. Aproveitando a deixa, aí vai uma dica: nenhum problema comportamental responde a corticoides. Então, se o cão se coca e você̂ tratou com esteroides e ele parou, muito provavelmente ele seja alérgico e não ansioso.

Mas voltando ao nosso assunto. Preste atenção na anamnese. O proprietário irá relatar que “o cão não era assim”. Ou seja, a personalidade e as atitudes do animal nada tinham a ver com a maneira como seu paciente está se comportando agora. Se o cão sempre foi relaxado e normal, e de repente começou a demonstrar sinais de fobia, seja de pessoas ou sons altos, provavelmente ele esteja com hipotireoidismo e não com um distúrbio de comportamento. No caso das alterações comportamentais verdadeiras, o animal sempre demonstrou, de uma forma ou de outra, que tinha um desvio nas suas atitudes, mesmo que imperceptíveis aos olhos do proprietário. Num caso típico, um cão que sempre foi dócil não ataca o dono “do nada”. Durante a anamnese, conversando com o proprietário, pode-se identificar vários sinais ao longo de sua vida que indicavam que esse cão iria chegar aos “finalmente” cedo ou tarde.

Hormônios e suas alterações

Existem muitos hormônios que podem interferir nas mudanças de comportamento. Quaisquer que sejam essas alterações, é muito importante fazer as dosagens, sempre que possível, para confirmar o diagnóstico e encaminhar para um endocrinologista, se for o caso, ao invés de um comportamentalista. Se a suspeita for confirmada através de exames, assim que o animal for tratado, seu comportamento voltará ao normal. Isso acontece porque os hormônios interferem na resposta emocional. Por exemplo, a dopamina regula o ACTH, a noradrenalina coordena os hormônios das tireoides, e a prolactina está ligada a serotonina e a dopamina. Existem inúmeros hormônios envolvidos, várias interações entre eles e com seus neuromediadores. Não é uma tarefa fácil. Se alguém me perguntasse o que eu gostaria de ganhar de Natal, eu certamente responderia: um endocrinologista só́ pra mim!!!!!

Vamos dar uma olhada agora nos casos mais comuns de envolvimento hormonal. No caso do hipotireoidismo em cães, os sintomas mais comuns são os depressivos. A baixa atividade e a falta de motivação podem ser relatadas pelo dono. Outros sinais podem ser o surgimento de fobias ou ansiedade em cães adultos. As dosagens de T4 e TSH podem ser sugestivas, mas existem estudos que sugerem que mesmo quadros subclínicas podem responder bem ao tratamento.

Já́ o hipertireoidismo é muito comum em gatos mais velhos. De diagnóstico mais fácil, já́ que inclui vários outros sintomas fora as modificações de comportamento, pode ser detectado pelo exame físico através da palpação da glândula tireoide por médicos veterinários experientes. Uma das principais queixas é de que o gato mia muito, come muito, defeca fora de lugar e não dorme nunca. De repente aquele gatinho meigo e molinho que passava o dia na poltrona não deita nem por decreto. Nos exames é possível detectar T3 livre aumentado. O tratamento pode ser cirúrgico ou medicamentoso. “No caso do hipotireoidismo em cães, os sintomas mais comuns são os depressivos.”

A Síndrome de Cushing também apresenta sinais mais claros. Mudanças comportamentais em cães mais velhos de raças predispostas podem ser um dos primeiros sinais. Num primeiro momento os animais apresentam excitação extrema, ansiedade e podem ter episódios de agressividade. Com a progressão da doença, apatia e depressão podem se desenvolver. Se suspeitar de hiperadrenocorticismo, faça os testes e encaminhe o cão para tratamento. Se mesmo após o início da terapêutica as alterações de comportamento persistirem, existem casos onde o Selegeline pode ser usado com ótimos resultados.

Embora existam outras alterações, principalmente relacionadas aos hormônios sexuais, que unem a endocrinologia às modificações de comportamento, acho que estas realmente são as mais comuns. Quanto a pseudociese, por se tratar de um assunto mais amplo, prometo tratar numa próxima matéria. Enquanto isso, por mais vontade (e necessidade) que eu tenha de atender consultas de comportamento, descarte qualquer outra patologia primeiro e considere encaminhar a um endocrinologista antes. 

 

Luelyn Jockymann, médica veterinária especialista em comportamento de cães e gatos - luelyn@terra.com.br

 

 

 

 

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