terça-feira, julho 16, 2024
Aves e Aquarismo

Panorama do Aquarismo no Brasil

Confira tendências e novidades sobre o mercado na entrevista com Ivan Oliveira, vice-presidente da ABLA

Foto: Khusen Rustamov por Pixabay

Confira entrevista com Ivan Oliveira, presidente da Associação de Criadores e Lojas de Aquário do Ceará (Aclace), dono da Piscicultura Tanganyika, no município de Aquiraz, do e-commerce Aquário Mania e vice-presidente da Associação Brasileira de Lojas de Aquariofilia (ABLA), que participa das oficinas da Secretaria de Ivan Oliveira, vice-presidente da ABLA Aquicultura e Pesca (SAP), do MAPA, para estruturação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Aquicultura Brasileira – o PNDA (2022-2032).

Revista Pet Center: Como avalia o setor de Aquarismo hoje? Principalmente no pós-pandemia?
Ivan Oliveira:
Acredito que todo o mercado esteja aguardando que os índices melhorem para aumentar investimentos, e o comércio como um todo volte a girar com mais vigor. Para o hobbysta acredito que mudou o costume de ir muitas vezes à loja, pois o cenário da pandemia mudou a rotina dos consumidores, onde a presença do e-commerce se consolidou. Outra herança da pandemia foi a implementação de outros canais de venda, como o WhatsApp e sites de venda que permitem ao consumidor simular, inclusive, o valor e tempo de frete. Mas ainda há muitos consumidores que preferem escolher os peixes “ao vivo”.

Ivan Oliveira,
vice-presidente da ABLA

RPC: Que avanços tivemos no setor nos últimos anos?
Ivan:
O mercado nacional agora tem acesso a muitas espécies nativas que antes eram proibidas. Temos a nova Portaria do MAPA nº17, de 2021, que cria o modelo positivista, onde todas as espécies nativas podem ser coletadas com exceção das que estão ameaçadas ou que estejam em ilhas oceânicas. Diversos outros pontos foram também melhor definidos, que possibilitam as empresas brasileiras operarem com segurança jurídica no comércio de peixes ornamentais.
No segmento de produtos podemos destacar a inovação advinda da chegada dos testes de água a nível atômico, onde você compra uma caixa com frascos, coloca a água do seu aquário e ela é enviada a outros países como Alemanha e EUA para ser analisada em grandes equipamentos modernos de emissão de plasma, que medem até 40 elementos da tabela periódica que são importantes no aquário, sendo que os resultados são disponibilizados pelo celular e computador. Os resultados são super precisos com indicações do que deve ser feito para corrigir os parâmetros. Essa tecnologia chegou há pouco tempo no Brasil.

RPC: E o que ainda temos como desafios? Têm algum projeto para eles?
Ivan: Na aquicultura precisamos discutir a criação em cativeiro das espécies ameaçadas de extinção, sendo a piscicultura considerada uma importante ferramenta de conservação. Existem muitas espécies de interesse para o mercado de aquarismo que estão impedidas de serem reproduzidas no Brasil. São cultivadas no exterior e enviadas para todo mundo, fazendo que nosso país perca projeção com a nossa biodiversidade.
A importação e criação de répteis e anfíbios também é uma demanda que vem sendo defendida pela ABLA, pois existem muitas espécies que se adaptam bem ao cativeiro e que não possuem risco de serem invasores caso fujam ou sejam soltos. Ocorre que, apesar da competência ter sido repassada aos Estados, ainda existe normatização do IBAMA proibindo novos criadores. Estamos junto a Câmara setorial do PET, aos órgãos de meio ambiente e o MAPA discutindo estes e outros assuntos que ajudarão o setor. Além disso passamos a compor a Comissão Permanente de Gestão- CPG Ornamentais, onde o MAPA discutirá com o setor e com a academia novas diretrizes para a atividade.

RPC: Como o Brasil se classifica hoje no hobby em termos mundiais?
Ivan:
Somos ainda conhecidos por sermos um grande celeiro de espécies selvagens de água doce e que a cada dia passam a ser mais conhecidas por novas descrições científicas de taxonomistas. Atualmente, com o crescimento do aquarismo impulsionado pela internet e pelas grandes redes de pet shops, estamos importando mais animais e produtos, aumentamos nossa presença em feiras mundiais e estamos começando a exportar peixes, principalmente espécies nativas raras.

RPC: Nosso mercado ainda é dominado pelos importados. Com a alta do dólar, que impactos tivemos?
Ivan:
Com a dificuldade das importações não somente na alta do dólar, mas com a diminuição dos voos, o que aumentou o preço dos fretes, o
mercado se volta a consumir as espécies criadas no Brasil e as de extrativismo, mas algumas espécies importadas de peixes de água doce, marinha e corais têm grande apelo e mesmo com esses aumentos, o hobbysta ainda quer e compra, já que temos um bom público com bom poder aquisitivo. Mas, podemos afirmar que esses aumentos possibilitaram as espécies nativas serem comercializadas em nosso país.

RPC: Somos um dos maiores produtores de peixes para o hobby? Como anda esse setor de comércio de peixes vivos, que é base do hobby?
Ivan:
Nossa produção ainda é baixa se compararmos em proporção a países da Ásia e outros grandes produtores em regiões da Europa e EUA. Mas temos uma estimativa de 4000 aquicultores no Brasil em grande maioria de pequeno porte e informais, que atendem mercados locais em centros urbanos. A grande produção se concentra no Triângulo Mineiro, com mais de 500 produtores que abastecem toda a região sudeste e hoje levam também para quase todo o Brasil por malha rodoviária. No Ceará temos um grande produtor que hoje possui a maior variedade e atende o Brasil e exporta através dos exportadores brasileiros sua produção de peixes marinhos e de água doce. No Rio de Janeiro temos diversos produtores com destaque ao maior produtor do Brasil em volume de kinguios, carpas coloridas e outras espécies. No Paraná também há um grande produtor que atende a região Sul e Sudeste, e em São Paulo vários produtores que vendem ao mercado de São Paulo, que hoje representa 60% volume comercializado de animais aquáticos (peixes, corais, camarões, caramujos etc.).
Estamos apoiando as ações desenvolvidas pela SAP, que tem desempenhado diversas atividades para que os aquicultores ornamentais se formalizem, tenham acesso a crédito, possam discutir suas demandas em Workshops, participem de programas de missões internacionais para conhecer experiências em outros países, legalização do uso de alimentos vivos nas aquiculturas e apoio, que também já foi discutido junto ao SEBRAE.

RPC: Que espécies têm sido as mais procuradas hoje em dia?
Ivan:
Pequenos aquários plantados com pequenos peixes, camarões e caramujos, novas variedades de corais e a construção de lagos ornamentais que estão em alta na mídia, nas residências e em empresas.

RPC: Acredita que nosso potencial no setor ainda não foi explorado?
Ivan:
Acredito que podemos crescer muito, pois o volume de aquários nas residências ainda é pequeno em relação a outros países. Precisamos divulgar mais e desmistificar o hobby que é considerado por muitos algo difícil de manter ou que tiveram experiências no passado erradas, para aumentarmos esse setor. O aquarismo marinho vem crescendo bastante devido aos corais cada vez mais fáceis de serem mantidos e pela grande variedade de espécies e cores, os lagos ornamentais, que hoje também estão transformando piscinas comuns em piscinas naturais com peixes, e somos grandes produtores de Betta, que é ótimo para entrar no hobby. Os pet shops têm ajudado muito nessa formação de novos aquaristas com aquários menores e mais simples.

RPC: Para o lojista, que dicas daria para ele lucrar mais?
Ivan:
Aprender a usar a internet para concorrer também dentro desse grande mercado, usando todos os canais possíveis e atendendo com velocidade. Atrair o cliente para loja com novidades, principalmente com novas espécies de peixes, plantas e corais, em um ambiente onde ele encontre informação e variedade, transmitindo confi ança na venda. Trabalhar bem a questão do serviço de manutenção e projetos que geram grande receita e lucro. Sempre atendendo com atenção e empatia para fidelizar sua clientela.


Por Samia Malas